Grata sou…

O ódio e a raiva tem encontrado muitas ferramentas e formas de se propagar, em tempos que é tão fácil se lamentar pelos acontecimentos e se decepcionar com o “mundo”, passa batido a gratidão por coisas importantes da vida, pequenos atos, lembranças, pessoas, experiências, que vão deixando nossa vivência mais leve e muito melhor. A gratidão traz uma leveza boa, como uma brisa daquelas que bate no nosso rosto numa tarde de primavera.

Meu maior aprendizado dos últimos tempos tem sido desconectar. O desapego, combinado com uma boa dose de visão ampla, para que eu consiga enxergar o meu futuro e as possibilidades que com ele vêm, são a força da minha gratidão. Mas vamos por partes…

Quero falar das micro-gratidões, aquelas que ocorrem como um “nossa que orgulho dessa pessoa” ou um “que calorzinho no peito essa atitude”.

Devo admitir que minha família entra constantemente nessa lista de pequenos orgulhos. Meu pai recentemente se aposentou. Só isso já fez toda família muito feliz, ele sempre trabalhou demais. Mas o que me impressionou é que, no ano dos seus 60 anos, ele se inscreveu em um curso de inglês. Vê-lo fazendo o tema, animado e evoluindo, não tem preço. Ele também comprou uma bicicleta, um outro belo exemplo de que idade é só número. A parte que mais me emociona é que, depois dos anos de exaustão, ele tem se dedicado à casa e ao cuidado da minha vó, de 90 anos, com um carinho e cuidado que só ele tem e que sempre me fez grata por ter ele como pai. Nos registros desses momentos familiares, vem a minha mãe com seu celular, facebook.. todas as ferramentas para manter a família unida, os amigos próximos e as pessoas conectadas. Sempre aprendi muito com ela, dedicação total às pessoas, um sorriso no rosto, e buscar com que as pessoas se sintam bem e seguras na sua companhia. Sempre com uma rotina de super mulher, mãe, professora. Além de toda a criatividade e ensinamentos de um olhar diferente sobre a vida, mesmo que as vezes sem querer. Quando eramos pequenos ela sempre gostava de preparar o “lanche surpresa” e sempre vinha um prato ornamentado com carinhas e desenhos. A comida parecia espetacular, mas espetacular mesmo era a ideia, apenas esses dias ela me ‘revelou’ que fazia isso quando não tinha quase nada pra comer em casa, então ela usava a criatividade pra que a gente comesse sem reclamar, e eu achei genial.

O normal é que o irmão mais novo se inspire no mais velho, mas eu sendo a mais velha sempre vi as coisas em reverso, desde muito cedo aprendi a aprender com meus irmãos. Não cabe no peito o carinho e gratidão, com um pingo de orgulho, que eu tenho deles. Minha irmã, criativa, talentosa, inteligente, largou teatro e passou em primeiro lugar em Engenharia de Energia na federal. Esses dias viu uma gatinha abandonada, passou três horas resgatando, pediu ajuda das pessoas certas, levou no veterinário, e, momentaneamente, estamos cuidando dela. Aquece meu coração ver esses pequenos atos de humanidade. Meu irmão, um lindo, super inteligente, dedicado e engraçado, com esforço conseguiu passar um ano estudando com bolsa integral do Ciências Sem Fronteiras, em Dublin, chegou lá tímido e hoje programa viagens e se vira com maestria.

Nessa gratidão, meu amigos tem um papel muito especial. Digo pra eles que sou grata, comunico meu carinho constantemente, abraço todos como se fossem únicos, olho pra eles como se fossem tesouros. O caminho me trouxe muitas e muitas pessoas, nem todos bons. Passei muito tempo buscando uma perfeição, buscando pessoas controladas, que aturassem as minhas angustias, meus medos, meus desequilíbrios, como anjos. Sem nunca quebrar, sem nunca ruir. Hoje, olho ao meu redor e vejo anjos reais, pessoas que vivem longe ou perto, os que conheço há anos ou só alguns meses. Hoje sou grata até pelos defeitos, mas especialmente pelo o carinho, as conversas, os aprendizados, os modismos e tantas outras importantes “pequenices”. Talvez até me faltem palavras para explicar quanto os pequenos atos dessas conexões me geram gratidão e emanam esperança! Crianças, jovens ou velhos, mentes brilhantes e almas grandiosas.

É necessário desconectar de tudo que é toxico para conseguir enxergar a gratidão, é preciso avaliar e trabalhar todos os sentimentos que nos puxam para baixo para conseguir se conectar com uma amabilidade maior, ver nos atos e nos olhos dos outros a graça de tê-los por perto. Mas em especial, é preciso se conhecer e ver o potencial em si, para conseguir ver o potencial do que os outros têm a oferecer.

As experiência que eu tive, os projetos que vejo as pessoas realizando, as coisas boas e aquelas que me arrasaram. Tudo contribuiu para que eu chegasse nesse imenso agora, um infinitesimal de oportunidades que circulam em um segundo, em uma respiração, em um carinho ou um sorriso. É tão simples a complexidade da vida, que tudo que podemos fazer é sermos gratos.

Gabe Hansel

Gabe Hansel

Uma criança curiosa, uma adulta filosofa, uma adolescente rebelde e uma senhorinha alegre e contadora de piadas. Poderia ser a sinopse de um filme brega, mas é só um resumo das múltiplas personalidade dessa publicitária e atual estudante de administração pública. Gabe tem vícios em Youtube, Netflix, coisas belas, conhecimento, pessoas e mudanças. Aqui no Uma Boa Dose encontra espaço para refletir sobre a vida, amores, histórias e experiências, e ama compartilhar tudo isso com vocês.
Gabe Hansel

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