Sentir: verbo que indica coragem

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Ilustração: Agustina Guerrero.

Quando era pequena, fui alfabetizada muito cedo, aos quatro anos de idade. Saía por aí, de mãos dadas com meus avós, lendo os nomes das lojas, os adesivos indicando as promoções nas vitrines, as capas dos incontáveis livros daquela biblioteca deles que era um mundo infinito. No banco de trás do carro do meu pai, ao som de Tribalistas ou Los Hermanos ou Paralamas do Sucesso, passava os olhos e balbuciava o que diziam os outdoors. Em voz alta, lia pequenos contos clássicos “de bolso”, com uma concentração digna de gente grande.

Minha relação com as palavras começou muito cedo porque sempre tive muito sede em entender o mundo. Para mim, se as palavras estavam por todos os lugares, elas poderiam ser o primeiro passo nessa empreitada que ainda não se realizou. Minha vó sempre aguçou ao máximo a minha imaginação… Amava passar dias e noites na casa dela. Antes de dormir, ela contava várias histórias clássicas, mas misturava tudo – não sei se por falha da memória ou por ser algo próprio dessa pessoa de 1,58m tinhosa e maravilhosa que é. Tinha princesa com quê de Robin Wood, e rei com complexo de inferioridade; e a minha cabecinha infantil viajava num mundo que imaginava, um dia, poder ser meu.

Até o momento em que ganhei o DVD dos Monstros S.A., que é meu filme preferido até hoje. E, no fim, tive uma vontade enorme em chorar. E chorar porque estava feliz, tão feliz que os olhos pediam para transbordar. Chorar porque a tristeza deu mão à alegria, simplesmente.

Mas não chorei.

Não chorei porque, naquela época, não me permitia chorar. Achava que era um símbolo de fraqueza, e pior, um símbolo de tristeza – como se isso fosse algo ruim. Ainda uma menina de cabelos encaracolados, aos cinco anos idade eu não sabia chorar. Ou melhor, não sabia que chorar era algo bom, por mais que minha vó insistisse que era, e me escondia se sentia aquele nó se formar na garganta.

Acredito ter sido assim que nasceu esse status de menina corajosa. Porque sempre tive essa vontade feroz em
conhecer o mundo, mas também (e principalmente) porque não deixava que me vissem chorar. E nessa dinâmica entre coragem e vulnerabilidade, as palavras me salvaram de um naufrágio sentimental.

Explico: sempre senti tudo com muita intensidade. Sempre fui muito sentimental, embora lutasse para esconder. Escondia porque o carimbo de menina corajosa havia sido atribuído a mim, e isso tudo acontecia porque não entendia: coragem tem tudo a ver com ser vulnerável.

As palavras de “Adivinha o quanto eu te amo”, um livro infantil que me alfabetizou, em que o Pai Coelho explica pro Coelhinho o quanto ele o ama, me emocionavam terrivelmente. “O Pequeno Príncipe”, um dos livros que me alfabetizou na literatura, também o fez. Mais tarde, na pré-adolescência dos terríveis doze anos, debulhei-me em soluços com os versos sobre morte, inocência e infância, em “A Menina que Roubava Livros”. E assim, durante esta curta vida, fui lendo romances, vendo filmes de animação – ah, Divertidamente, por que tão verdadeiro? –, e tentando entender o mundo, ou encarar a vida, descobrindo a beleza da vulnerabilidade.

Então, num dia desses, conversávamos em família, quando comentei o quanto me emocionei, recentemente, lendo poemas de Vinicius de Moraes. Meu pai disse: “minha filha, tu te emocionavas com músicas com cinco anos de idade!”, meio que querendo dizer: acorda, Carla, tu já és assim faz tempo. E sou mesmo. Vejo nas palavras a intensidade que falta, às vezes, no viver. A honestidade, o cuidado, o detalhe que falta à vida. E, ainda bem, há alguns anos tenho aceitado essa relação e me permiti essa abertura.

Ouço Chico e choro, mas choro também assistindo ao comercial de televisão dos Médico Sem Fronteiras. Sou daquelas pessoas que se cativa facilmente, mas não superficialmente. Quando vejo a dor do exílio do seu país, a dor de Chico dói em mim. Quando leio sobre a morte, sobre a imaginação fértil e a inocência de Liesel, choro. Mas quando vejo que o Mike reconstruiu a porta de florzinhas rosas, e o Sully sorri ao reecontrar a Bu, também choro. E hoje em dia não me sinto mal por chorar, não.

Hoje entendo que ser uma “menina corajosa” não tem nada a ver com o fato de chorar ou não por algo, mas sim por se permitir ser e sentir tudo. Hoje visto vestido de flor, ou calça jeans com camiseta branca, sem achar que um ou o outro diz algo de mim que eu não sou. Falo palavrão assim como palavras rebuscadas (que procurei no dicionário para me achar cult). Hoje sei da minha relação apaixonada pelo meu pai e da minha admiração por ambas as minhas mães, pela garra e coragem em subverter suas realidades e suas próprias convicções. Hoje eu tento ser mais aberta a tudo, o que seria a então coragem. Graças àquela menina de cabelos encaracolados que buscava entender o mundo por meio das palavras, sou alguém que – hoje – não tem vergonha em sentir.

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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