Só o tempo poderá dizer…

Um tanto quanto atípico, estava no ponto de encontro onde havíamos marcado alguns minutos antes do combinado – não que eu goste ou que me atrase com tanta frequência, assim, mas… Poxa, era nosso primeiro encontro e eu não queria passar uma má impressão. Mesmo.

Você escolheu a esquina da 49na rua com a 9na avenida porque era menos movimentada e você poderia parar o carro com mais facilidade. O bairro, um nome um tanto quanto incomum, Hell’s Kitchen, oferecia, segundo você, um ambiente mais descontraído para nós, apesar de, teoricamente, a cidade toda ser gay friendly.

Parei ali, desajeitado, na esquina onde marcamos, segurando uma mão na outra com mais força que o necessário. O coração oscilava com frequentes disparadas hora ou outra e eu tentava respirar com mais naturalidade. Não estava ofegante, mas confesso que tampouco aquele fosse meu ritmo usual. Repeti cem vezes que aquilo era normal. Estar nervoso era normal.

– Nos conhecemos há nove anos, Murilo. Nove anos. – conversava comigo mesmo mentalmente – está tudo bem.

Procurei por você apesar de saber exatamente onde você estava: dentro do carro de cor prata do meu lado esquerdo. É besta, eu sei, contudo queria teimar em procurar por você fora dele – a verdade, confesso, é que eu estava muito, mas muito ansioso, aflito e cheio de dúvidas na cabeça.

Quando nos vimos pela primeira vez, notei o quão parecido você é com as fotos. Foi bem curioso realizar essa experiência depois de tanto tempo. Sério. Captei o máximo de detalhes da sua aparência física no curto tempo que tive até você chegar até mim.

Lançamos um sorriso um para o outro e depois demos um abraço desajeitado.

No jantar, o silêncio tomou conta da situação aqui e ali. Da minha parte, era pura timidez. Comentamos da comida, de como tem gordura em quase tudo o que se come naquele país e de como tudo é muito condimentado. Depois falamos do país em geral, dos meus costumes e dos seus…

Saímos mais duas vezes depois, ou acho que foram três, não tem muita importância. E me lembro, como se tivesse sido agora, da nossa última conversa pessoalmente, de como nossos olhares alcançavam algo além do físico.

Apesar de tanto tempo e tanta história que aconteceu em nossas vidas, nossos caminhos foram se cruzando e se descruzando aqui e ali. Sempre virtualmente perto e longe. No sentido mais literal e amplo da palavra.

Nossa trajetória é feita de acontecimentos, fatos que se desenrolam e marcam nossas vidas de diversas formas. Nossas memórias, frutos desses fatos, são talhadas em nossos corações com os sentimentos e sensações que temos naquelas situações. É por isso que eles sempre ressurgem quando nos recordamos algo. Ora, nossas lembranças são feitas delas!

E é com um calor gostoso no peito seguido de um sentimento muito especial de gratidão e completude que me recordo quando você pegou na minha mão e me guiou pelas ruas da cidade até chegarmos na Times Square.

Um tiquinho de tristeza vem quando me lembro do nosso último abraço apertado e, principalmente, do nosso último beijo.

Foi até um tanto quanto rude nos despedirmos com um rudimentar “vamos nos falando”. Mas somos adultos. Sabemos das coisas. Não dava para ser diferente dadas as circunstâncias de toda a situação.

“Somos adultos” – a desculpa mais esfarrapada que damos para nós mesmos com o objetivo de nos sentirmos mais preparados para as coisas, de quase sempre esperarmos o pior de tudo. Adulto… Aquele neutralizador dos nossos sentimentos mais puros e despresunçosos.

– Vamos nos falando – um disse.

– Vê se não some – o outro responde.

Como adultos, claro.

E isso selou nosso destino: nossos olhares se cruzando uma última vez e apontando para horizontes, ao menos por ora, opostos.

Nosso fim, duro como pedra. Ou apenas nosso começo, frágil como uma flor, mas que, de igual intensidade, é belo e promissor.

Isso, como você mesmo disse, só o tempo poderá dizer.

Murilo Igarachi

Murilo Igarachi

Paulistano com descendência na Lua. É daqueles que você tem cantando sozinho na fila do metrô ou balançando as pernas como uma criança num banco de praça qualquer. Questiona tudo o que vê e busca achar um sentido para tudo, em especial para a vida e seus misteriosos mecanismos. Amante nato de natureza, apesar de ser de exatas, ama dias ensolarados e chuvas de verão. A cada duas Quintas, aparece espalhar doses de vida, amor em suas mais variantes e você, muito você. :3
Murilo Igarachi

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