O amor não sabe suas músicas preferidas dos Beatles

Nunca soube descrever nem explicar o que é amor. Mas sei entendê-lo. Sei que amor tem muito mais a ver com o que George Harrison escreveu em Something do que a Taylor Swift escreve em Lovestory. Sei que amor tem muito mais a ver com Úrsula e José Arcádio Buendía de Gabriel García Márquez do que com Romeu e Julieta de Shakespeare. Sei que amor tem muito a ver com o amor que pode se transformar em raiva ou em rima – mas que não se acaba –, de Leminski, e com Vinicius supreso com “esse amor que é real, e que, contudo, não cria que existisse mais”.

Amor tem como princípio Vinicius de Moraes e seus nove amores: “em ti bendigo o amor das coisas simples”. Porque amor não é aquilo que têm vendido por aí: presentes caros, jantares em restaurantes impessoais, imediatismo sentimental. Não acho que seja algo tão magnífico, no sentido de ter um tamanho tão imenso, apesar de ele englobar muito de nós. Amor não são os textões no Facebook e os beijos em fotografias eternizadas pela infalível memória da internet. Amor não é falar que ama, nem são os grandes gestos, as declarações públicas.

Amor é escolher os ingredientes do jantar de dia dos namorados no supermercado juntos. É pensar se o risoto vai harmonizar legal com alho poró ou cogumelos, considerando aquele vinho que a gente ficou de tomar faz um tempo. Fazer com as mãos, com o cuidando do mexer do arroz na panela, o balancear dos ingredientes se equilibrando e um “vem provar pra ver o que tu achas?”. É dançar “My Girl” de pantufas na cozinha enquanto lava a louça.

Amor são as conversas eternas que se tem, são as caminhadas vespertinas pela praia, são os caldos-de-cana divididos na praça. É dirigir por aí, sem destino. As horas na estrada para se ver, o sorriso no rosto ao enxergar o outro esperando na calçada, o abraço que reconecta os corações sós. Amor é deixar de beber no bar porque o outro está de motorista da rodada. Quando se tem de trabalhar num sábado, o outro vai ajudar – correndo pra lá e pra cá, junto.

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Amor é entender a dor do outro como sua. É fazer de tudo para trazer um sorriso ao seu rosto. Amor é entender que nem sempre se será feliz no grau máximo que a escala de felicidade permite, mas que se fará de tudo para que assim o seja. É reconhecer no outro um outro, não uma parte de si; é ser duas pessoas que se conectam, se entendem, se interseccionam, mas não se completam. Dois seres complementares, que adicionam, que somam, que são.

Acredito num amor não-declaratório, em que o silêncio preenchido ao cantar uma música baixinho, acompanhada de um ukulele, seja a sua representação maior. Quando pega na mão o celular e liga para dizer: “como você está? Como foi seu dia?”, é dizer que se importa ou num abrir do porta-malas do carro, inocentemente, e se deparar com a orquídea mais bela te encarando.

Porque o amor não é aquilo que a gente idealiza. Não vai ser alguém que sabe todas as suas músicas preferidas dos Beatles, nem todas as suas referências literárias, nem ser do mesmo ramo em que se trabalha. O amor não vai saber tocar violão, nem cantar de maneira afinada. Ele não vai querer sair de noite para dançar, nem vai ser sociável em família num primeiro momento.

Mas o amor vai fazer de tudo para dançar, na varanda do seu quarto, à música que está tocando na sua playlist do Spotify. Vai querer sair para andar de bicicleta pela rua, porque a sensação do vento no rosto e dos cabelos embaraçados é a que ele mais gosta. Vai beber tanta cerveja quanto você, e insistir para você empreender na degustação de vinhos, de que você teimava não gostar – e que se tornaram seus prediletos. O amor vai ser bagunceiro – e bagunçado – e não vai ser simples. Vai ser complexo. Vai admirar seu trabalho, vai ser o primeiro a aplaudir suas conquistas, vai ser a pessoa orgulhosa na primeira fila de cadeiras, com o olhar brilhando frente ao palco da sua vida. Vai abdicar um pouco de si, doar-se em partes. Vai saber o que você está sentindo com um olhar, e vai apertar sua mão ao perceber seus medos.

Porque o amor chega, de mansinho, e de repente toma tudo o que é seu: em principal, o coração. E ele acredita no seu potencial, mais do que qualquer pessoa. O amor vai te incentivar a ir sempre em frente, com fé de que seus projetos darão frutos – e se não derem, estará ao teu lado para te consolar. Amor tem liberdade em ser tudo o que quiser, mas não é nada que se possa prever.

Talvez o amor chegue na hora certa, talvez não. Talvez você não o entenda logo de início. Talvez ele caia de paraquedas na sua frente. Talvez você esteja preparado, talvez não. Mas o amor é aquilo que despertará os seus melhores tons, sua melhor voz, seu melhor tato. Talvez o amor seja efêmero e fique por um mês, talvez seja aquele que perdurará por décadas uníssonas.

Acredito no amor que faz, que demonstra, que age. E mais: que usa da rotina para se fortalecer, dos imprevistos para crescer, das dores para curar.

Um texto que gosto muito diz que a gente sabe quando é amor, mas acho que a certeza não disso não é verdadeira. Nem sempre a gente sabe quando é amor, mas a gente sempre sente.

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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