Foto: Mike Fiddleman

Vagalumes

Não me lembro muito bem do vô Antônio. Não sei se ele usava chinelo Rider ou sandália de couro, se gostava de música, de ler ou se tinha feito outra coisa da vida que não fosse torrar café, mas me lembro com precisão do que dia em que ele morreu. Da mamãe me deixando na casa da Renata, minha amiga de infância, para brincar de boneca enquanto ela organizava o velório. Do calor insuportável e de, mesmo assim, estar vestindo uma calça jeans e um cardigan verde musgo de lã. De sentar na calçada da pracinha do Vale do Cedro e contar pra Renata que “ meu avô morreu”, como quem conta que assistiu TV a manhã toda. Do sol rachando no capô do Tempra azul marinho quando minha mãe voltou para me pegar no fim da tarde. Dos seus olhos cansados e da garrafa de café vazia que ela carregou o dia inteiro nos braços. Eu tinha doze anos e não fazia a menor ideia do que era a morte. Se soubesse, acho que me esforçaria para lembrar mais do que a mania de usar cotonetes que o vô tinha ou de sempre trazer um boné de presente pra ele das viagens de família à Guarapari. A única lembrança nítida que tenho de nós juntos era a das noites na escuridão de Miracema.

 

Lá na rua de casa, onde me criei menina da roça e cresci essa moça meio sem terra, faltava luz sempre que chovia forte. Nos anos 1990, ainda chovia bastante no verão. Quando o céu acendia com o primeiro relâmpago, a luz da cidade toda apagava e íamos para a varanda. Vovó sentava no balanço e contava casos de quando morava em Juiz de Fora enquanto minha mãe observava eu e o Thomás com olhos de lince, como quem acha a cria em meio ao breu. Papai fazia piadas pontuais e o Thotô, que era uma criança ainda muito pequena e de riso fácil, gargalhava daquelas bobices. O vô era mais quieto, mas quando falava, não falava: trovejava. Exceto quando me sentava no seu colo e me contava, dócil, sempre a mesma história – era uma vez um tigre que se lambuzava de mel, colava folhas no corpo inteiro para se disfarçar de arbusto e esperar a lebre passar. Perdi a conta de quantas vezes ouvi esse mesmo conto, com o mesmo entusiasmo, em uma mesma noite. Até que vovô se cansava e ficávamos todos em silêncio, olhando para o céu e contando vagalumes no escuro.

 

Essa é uma das memórias que tenho mais vivas comigo. É tão viva que, por vezes, tenho a sensação que metade da minha infância aconteceu naquela varanda escutando a chuva com as luzes da cidade apagadas.

 

Por coincidência, os meus primeiros dois anos em São Paulo também me pareceram passar assim. É que na Fradique Coutinho, quase na altura da Natingui, onde morava, os postes viviam tombados e a luz ficava mais desligada que acesa.

 

Na vida adulta, não era tão divertido ficar sem energia. O celular não carregava, o elevador não funcionava. Olhava pela janela e era só preto no horizonte. Só que não tinham vagalumes. Nem a voz de trovão do vô Antônio contando histórias de tigres e lebres. O que sobrou da infância foram os resquícios de medo do escuro e essas lembranças romantizadas que grudam na memória gente.

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
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