O apanhador de conchas

A água cristalina estava tocando gentilmente suas pernas enquanto eles andavam na beira do mar. O sol estava brilhando intensamente no céu, seu reflexo no oceano cintilava como se toda a praia fosse feita de pequenos diamantes, o paraíso na terra. Para os dois meninos, aquilo era vida e a vida era boa.

“Eu gosto mais das azuis.” disse Matheus enquanto se dobrava sobre si para pegar outra concha e colocá-la na bolsa que carregava.

“Eu gosto de todas.” respondeu João.

“Eu não entendo porque você nunca escolhe uma favorita.” Matheus insistiu.

João pensou sobre isso por um momento e então respondeu:

“Só pega as conchas, cara.”

“Claro, eu vou.” disse Matheus, encerrando o assunto.

Eles voltaram à coleta de conchas até o momento que seus rostos estavam queimando por causa do sol, decidindo que já haviam pego bastante, se puseram no caminho de casa.

Matheus sempre contaria algo engraçado ou interessante sobre ele para deixar João empolgado, só para depois dizer que estava mentindo e que ele não deveria acreditar tanto assim nas coisas que o amigo dizia. João, por sua vez, não se importava se as coisas que Matheus contava eram falsas ou verdadeiras, ele simplesmente se contentava em ser a pessoa a ouvir todas essas histórias.
Todos os dias eles coletavam conchas juntos.

Todos os dias eles passavam um momento de suas vidas dividindo coisas um com o outro.
Todos os dias, até que Matheus partiu à procura de novas oportunidades na vida.

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“Vô! Vovô João! Vô!” A garotinha estava gritando muito alto do barco.

“Que foi?” João gritou por cima de seu ombro.

“O que você está fazendo, vô?”

João não respondeu de imediato, ele estava se agachado pegando algo na areia. Depois de alguns minutos fazendo os mesmos movimentos, andando pela praia e se agachando, ele alcançou o barco com uma bolsa cheia.

“O que é isso, vovô?” ela perguntou.

“São conchas.” ele respondeu rapidamente.

“Legal! Posso ver?”

“Claro.”

Ela abriu a bolsa e sorriu quando ela viu várias conchas azuis lá dentro.

“Elas são lindas, vovô! Por que você está pegando elas?” ela estava muito contente com sua pequena descoberta.

João olhou para o mar, e mais distante, para o horizonte. Ele foi instantaneamente sugado para um mundo que ele jurou não mais existir, ele pensou em todas as circunstâncias e todas as razões para tais pensamentos.

“Eu não sei, mas eu gosto das azuis.” ele disse finalmente.

Eles voltaram a navegar pelo mar.

Ingrid Tanan

Ingrid Tanan

A Ingrid é a moça dos sorrisos com covinhas e das bochechas rosadas. Ela aprecia um bom livro e, mais ainda, uma longa conversa sobre ele. Apaixonada por design, música, Friends, marshmallow, Tim Burton, cadernetas, postais e post-its. Acredita que escrever é seu momento – é poder estar consigo e refletir sobre o finito e infinito. Você pode encontrá-la em qualquer livraria de São Paulo ou às sextas aqui no Uma Boa Dose.
Ingrid Tanan

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