Tem no Netflix?

Noite dessas, não faz muito tempo, conversava com um amigo (jornalista, claro) no Facebook sobre o fenômeno “Stranger Things” – e, se você ainda habita este planeta, já ouviu falar desse seriado. Ele me contou que, sob recomendação da chefia, tinha começado a assistir Veronica Mars, uma finada série de 2004, e que estava gostando bastante.

 

“Tem no Netflix?”, perguntei.

 

“Puts, não, tô vendo no DVD”.

 

Quase instantaneamente, me peguei pensando no quanto “Tem no Netflix?” é uma das frases que mais ouço. “Tem no Netflix?” é o retrato de toda uma geração de pessoas interessadas em conhecer pessoas, séries, filmes, músicas e lugares novos, desde que estejam pré-dispostos ao consumo fácil, prazeroso, indolor e temporário. “Tem no Netflix” significa que você pode assistir intensamente, mas parar quando quiser. Assistir repetidas vezes, mas sem deixar nenhum arquivo pesado no seu computador. Se entreter, sem se dar ao trabalho de vasculhar a internet atrás de seeds para um download decente.

 

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É muito fácil gostar de um seriado pronto, quase um fast-food, preparado pra você. É muito fácil gostar do emprego que dá comida-bebida-tecnologia-benefícios, tudo de mão beijada. É muito fácil gostar de alguém meio bêbado dançando Rolling Stones na sua sala. É muito fácil gostar da ponte aérea de 30 minutos entre São Paulo e Rio. E da corrida de Uber por nove quarteirões e que mal pesa no bolso.

 

Difícil mesmo é encarar o que fica. O que gruda. O que é de verdade. O que deixa registro no seu computador. O que sai do Spotify e toca na vitrola. O que sai do WhatsApp e entra na sua vida. A impressão que tenho é que, conforme as locadoras (e Torrents) entram em extinção, os relacionamentos, de todos os tipos e durações, também entram.

 

O DVD ficou obsoleto. O telefone fixo ficou obsoleto. A ligação ficou obsoleta. O amor, então, nem se fala. Ninguém mais quer ficar com um bibelô na estante da sala. E sabe por quê? Porque ninguém sabe onde isso vai dar. E ninguém quer ser responsável por terminar quando chegar ao fim. Terminar é uma merda. Terminar é parar de dividir uma conta no Netflix.

 

Acho que, de uma forma meio absurda, nossa busca enlouquecida pelo streaming de experiências vai totalmente em contrário com nossa vontade interna de ficar. Deve ser por isso que existe tanta gente melancólica e insatisfeita na vida. Porque quer construir algo sólido, nem que seja um “eu” menos transitório, e não encontra espaço. E nós, ávidos fãs do Netflix e distribuidores de perfis pra todos os membros da família, ficamos mesmo é com vontade de ter uma conta só nossa, uma vida só nossa, um amor só nosso.

 

Sentir é intenso. E, em alguma hora, compartilhar cansa.

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
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