Todo mundo é teimoso

Em maior ou menor grau, todo mundo é teimoso.

Essa é a minha tese.

Não importa o signo, a lua, o ascendente. Todo mundo acredita em algo, ou desacredita de algo. Eu sou taurina, com muitos planetas em touro, ascendente em câncer e lua em escorpião – ou seria ascendente em escorpião e lua em câncer? Não sei exatamente como meu mapa astral se constrói, preciso checar depois, mas sei que desde que entrei na faculdade e me perguntam sobre ele, as reações são das mais diversas (a galera universitária sabe muito sobre horóscopo)… Normalmente fazem um cara de tipo “nossa, você é teimosa, né” ou “que personalidade intensa” ou “que combinação forte”.

Sei lá viu, sempre achei isso meio esquisito, exatamente porque sou uma pessoa bastante teimosa persistente, obstinada e convicta. Ou seja, em teoria, meu mapa astral faz sentido. Porém, isso só acontece porque quando acredito em algo, eu realmente acredito; quando desacredito em algo, realmente desacredito. Essa lógica segue por inúmeros setores da minha vida… Quando há um desafio positivo pra mim, insisto até resolvê-lo e encontrar outro posteriormente. Ou quando gosto de fazer algo, como ler artigos opinativos, assistir a vídeos por aí, conhecer novos artistas, ouvir novas músicas, beber novas cervejas… Sou muito intensa com tudo isso, também. E muitas outras pessoas são assim, da mesma forma. Arrisco em dizer que a maioria das pessoas que eu conheço, inclusive.

Teimosia é isso também, não? Acho que a gente está muito condicionado a achar teimosa a pessoa que insiste num argumento, num ponto de vista ou quer insistentemente expor sua opinião sobre um assunto. Enquanto fazemos isso restringimos totalmente a semântica da palavra e excluímos as pessoas de todos os outros signos – convenhamos, não só taurinos são teimosos. Comentei sobre signos para ilustrar um pouco, mas sendo o ponto: todo mundo insiste naquilo que gosta, acredita, crê, ama. As pessoas, de diversas personalidades, jeitos e origens, fazem isso à sua maneira. Seja continuando andando de bicicleta entre os carros, discutindo um assunto polêmico no bar ou indo ao cinema toda semana. Todas as ações, até as mais simples e inocente, são atos de teimosia, de insistência, de carinho.

Por que não carinho? Afinal, insistir em algo é mostrar que se liga para tal. Não nos percamos na nossa própria teimosia, mas também não deixemos dizer para nós se é ou não certo insistir em qualquer coisa. Acredito que nossas vontades em persistir condizem com o que o coração sussurra para nós dizendo o que acha certo. É por isso que voltei a escrever. É por isso, também, que exatamente neste momento eu vejo o jogo de estreia nas Olimpíadas do Rio: nossas musas brasileiras jogando futebol com as chinesas – e faço isso porque tenho fé no bom e belo jogo feminino, nessas mulheres de fibra, e que, algum dia, elas serão reconhecidas como merecem. Chamem-me de teimosa, se quiserem.

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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