Coletivo

Tem dias que me sento à beira da janela, olho pro céu azul e me ponho a pensar nesse mundão cheio de coisas incontroláveis. Penso uma, duas ou três vezes sobre as escolhas que fiz – quão boas, quão ruins, quão neutras foram? Fico contando, mesmo que sem muita paciência, tudo que ganhei ou perdi. Me orgulho do bem feito e tento arrumar qualquer desculpa para o que não foi, afinal, o que passou, passou.

Quando morei em Portugal, nossos “descobridores”, a terra mãe renegada pelos brasileiros, senti na pele, mesmo que em poucos momentos de fato, mas por muitos avisos dados, o que era preconceito. “Não se vista assim, não ande dessa maneira, não fale tal coisa. Brasileira não é bem vista aqui, sabe? Afinal, no passado vocês vieram ‘roubar nossos maridos’”. Passar por isso abriu meus olhos e comecei a ter mais empatia pelo diferente. Eu não era, jamais seria, aquilo pelo que me descriminavam. Mas isso não importava. Lá, minha nacionalidade me definia melhor que meu caráter.

Estamos em meio a uma época de muito debate sobre a nossa vida em sociedade. E não podemos ignorar que vivemos num país de muitas diferenças: culturais, monetárias, de cor da pele, das opções de vida, de ensino e das vontades. Eu, particularmente, não consigo ser indiferente com as tantas minorias, que no fim das somas, são a maioria. Sou branca, mulher, de família que se pode considerar “normal”, criada com amor, boa educação e com condições financeiras e emocionais estáveis. Muitos destes fatores fazem de mim uma “minoria” – pois não é a realidade mais comum por aqui – mas que se torna “maioria” por alguma regra invisível, histórica e seguida por todos, que é difícil de ser questionada por ser velada e cada dia mais calada.

“É fácil sonhar quando se tem tudo”, dizem. Eu não poderia estar mais de acordo. Não que seja ruim, sonhar é necessário, também não é ruim ter vantagens ou ter “nascido bem”. Mas infelizmente, vivemos em uma luta silenciosa das classes, a inveja e culpabilização dos dois lados se escancara aos nossos olhos. O senso comum diz que: se você tem dinheiro, não tem amor. Se tem amor, não tem dinheiro. Mas não é bem assim, e ai que está a parte bonita. Posso dizer que é um segredo meio óbvio, mas não existe um padrão pra vida. Ela não vem encaixotada e com manual de instruções. A vida vai se esculpindo. A gente pega ela como uma argila e modela, vai praticando e aprendendo, cada um do seu jeito e com a sua força. No fim do dia, qualquer modelagem será uma obra prima.

Convivendo e buscando conhecer mais sobre as questões de gênero, de raça, de saúde, de culturas e outras mais. Eu, que “não precisava ter nada a ver com isso”, me sinto pessoalmente responsável por cada uma dessas discussões. Me sinto incomodada com a falta de representatividade das culturas, com um país miscigenado que ainda é tão preconceituoso. Fico pensando: onde eu posso “dar as mãos” com os que não podem sonhar como eu?

Cresci vendo, nas mídias, pessoas com padrões meio utópicos, mas com as quais eu conseguia me identificar. Mas percebi que eu não preciso dessa representatividade. Meu coração se enche de alegria ao ver canais do YouTube, campanhas de publicidade ou qualquer outra forma de comunicação em que pessoas negras, indígenas ou das periferias estejam apresentando sua cultura e abrindo espaço para um debate saudável sobre o que representa elas. Linikers e Marias Gadús colocando sua alma e voz em músicas estonteantes, redefinindo os gêneros e as aparências com tanta “beleza” que fica difícil ignorar.

Por essa ser minha percepção do mundo, não vou tocar no lado da incompreensão. Mas, dentro da minha pequenez, busco abrir espaço e peço pra que passem todos aqueles que ficaram, até hoje, invisíveis. Venham e me ensinem a ser mais humana. Mesmo que essa ideia ainda corra solta na minha mente e eu não saiba direito de que maneira transpassar esse sentimento em ação. Me disponho, em nome dos meus valores, a ser uma ponte, sempre que possível, entre as diferenças, entre as oportunidades, entre o ensino ou o aprendizado. Fazer parte desse país que é uma mistura do mundo, heterogêneo em sentimento e em aparência, é um orgulho e toda a frustração de não saber representar em um só “ícone” essa cultura vasta se torna, ao mesmo tempo, um privilégio por estar em meio a este multicolorido de ideias. Isso, pra mim, é a representatividade do amor e do que desejo pro mundo.

Vamos ver o coletivo, ser o coletivo, exaltar o coletivo em cada individualidade que ele abrigue. Saber ser tudo e nada ao mesmo tempo. É confuso mesmo, eu sei, mas é isso que faz de nós maravilhosos!

Gabe Hansel

Gabe Hansel

Uma criança curiosa, uma adulta filosofa, uma adolescente rebelde e uma senhorinha alegre e contadora de piadas. Poderia ser a sinopse de um filme brega, mas é só um resumo das múltiplas personalidade dessa publicitária e atual estudante de administração pública. Gabe tem vícios em Youtube, Netflix, coisas belas, conhecimento, pessoas e mudanças. Aqui no Uma Boa Dose encontra espaço para refletir sobre a vida, amores, histórias e experiências, e ama compartilhar tudo isso com vocês.
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