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A grande Fazenda

Imagine que a vida seja uma linda e grande fazenda – quilómetros e quilómetros quadrados de terra fértil numa cidadezinha pacata chamada Terra. Imagine, ainda, que o dono dessa fazenda é você, um jovem inexperiente que tem como missão, seja através da tentativa e erro, seja através da ajuda de fazendeiros mais “vividos” (e por tal termo entenda o que lhe convir) se tornar um excelente fazendeiro.

São-lhe introduzidas diversas ferramentas: pás, enxadas, cavadeiras articuladas, cultivadores, etc. e diversos tipos de sementes das mais variadas famílias vegetais. O armazém tem todas as famílias de sementes e você pode, teoricamente, plantar o que bem entender no seu terreno. Apesar disso, dadas suas condições sociais e outros aspectos, você tem tendências a plantar determinados vegetais por influência de outros fazendeiros muito próximos (aqui entenda como família).

No começo, você não sabe muito bem como lidar com as coisas (e é aqui que a família tem grande peso na sua primeira colheita). Conforme o tempo vai passando, você vai aprendendo a manusear com maestria todas as ferramentas que lhe são providas e vai, ainda, aperfeiçoando suas técnicas de plantio e cultivação.

Começa, enfim, a entender cada tarefa atribuída. Percebe que, por trás de um simples ato de arar a terra, por exemplo, você não está apenas executando uma atividade mecânica, mas preparando o solo para semeá-lo depois.
Em um determinado momento, mesmo sem muito preparo, você acha que está pronto para tudo. Você acabou de sobreviver a sua primeira colheita e entende que já tem experiência para cuidar de seus negócios sozinho. Isso acontece lá pelos seus 14 anos de idade.

Nessa época, apesar de ainda muito jovem, você tem total autonomia para plantar o que bem quiser. Os outros fazendeiros podem tentar influenciar, e muitas vezes até conseguem mudar algo, mas você já é capaz de plantar muita coisa sem o pitaco de ninguém, mesmo que por debaixo dos panos.

Aos 18, você recebe uma chave. Sim, é a chave da porteira. Simbolicamente, significa que aquela fazenda é mesmo sua. Independentemente de sempre ter sido, agora você tem total liberdade para tomar decisões sem levar em consideração a influência dos outros.

É também neste período que você passa a usar seu plantio como fonte de renda. Começa a entender o porquê de seus pais sempre insistirem para você não plantar só morangueiro, mas macieiras também, e alface, e cenoura. Se você descobre que só sabe plantar um único vegetal, seus problemas começam aqui.

Um pouco mais tarde, talvez lá pelos seus 25, você é convidado a passar por uma nova grande colheita. Aqui, certas escolhas têm grande peso. Você descobre que vai ter que viver com o que plantou no passado. Você ainda tem tempo de mudar o futuro, aprender a plantar algo novo, mudar de mercado. Todavia, as sementes do seu armazém já não tem a mesma variedade que antes. Agora, as elas custam e, infelizmente, algumas você não tem mais condições de plantar.

Às vezes, bate um desespero nessa época. Você quer arrancar os cabelos, acha que talvez plantou a família errada de vegetais, poderia ser especialista em limoeiros mas só é especialista em bananeira (pun intended*), pensa que poderia saber usar aquele rastelo…

Os trinta se aproximam e você acha que está muito despreparado, que as coisas não estão certas o bastante. Que você deveria ser mais do que é. E as noites já não passam mais em branco. Muitas sementes já não podem mais ser plantadas, pois precisam de mais tempo do que você pode dispor a elas agora… Você sente certa impotência, mas repete para si mesmo que é só uma fase e que logo tudo vai passar.

Mas a verdade é que você não sabe. Não tem certeza. E por mais gostoso que seja plantar o que puder, a colheita agora vai pesar.

A fazenda é feliz. Sempre foi e sempre será.

Mas os frutos dela… Bem, os frutos dela só cabem a você.

***

A partir dos 26, eu não sei o que vem pela frente. Não sei quais caminhos vou tomar e o que vai me levar aos 30.
Trinta. Três, zero. Eu não sei a razão, mas sinto que tudo deve estar resolvido até lá.

O três, apesar de ímpar e chato, é meu número da sorte. Desde pequeno, tenho essa coisa de que os trinta serão meu ápice. A “idade de ouro”, o tão esperado oásis.

E por mais que eu queria chegar logo lá… A verdade é que a mesma ansiedade faz com que eu deseje ficar sempre ao um quarto.

Será que existe a crise dos 26?

Tô começando a achar que sim.

Murilo Igarachi

Murilo Igarachi

Paulistano com descendência na Lua. É daqueles que você tem cantando sozinho na fila do metrô ou balançando as pernas como uma criança num banco de praça qualquer. Questiona tudo o que vê e busca achar um sentido para tudo, em especial para a vida e seus misteriosos mecanismos. Amante nato de natureza, apesar de ser de exatas, ama dias ensolarados e chuvas de verão. A cada duas Quintas, aparece espalhar doses de vida, amor em suas mais variantes e você, muito você. :3
Murilo Igarachi

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