Fonte: Tumblr

2am

Acontece algo mágico às duas da manhã. 

Nesse frio meio indeciso, a vista da minha janela é de uma névoa um pouco densa que cobre os morros e ruas de Blumenau. As casinhas quadradas me informam que estou inequivocamente em casa, mas elas são só parte de um conjunto. 

Pelo que me informam as janelas apagadas do prédio da frente, o bairro inteiro dorme. Amanhã é segunda, afinal, e se deve acordar cedo para enfrentar o trânsito dessa cidade em forma de ampulheta. As ruas de manhã são gargalos por onde a gente se debaterá silenciosamente por meia hora ou mais, deixando passar discretas confissões através de adesivos nos carros e caras sisudas nas calçadas e janelas do ônibus.

Esse cenário sucede há vinte e tantos anos, e suspeito que tenta me comunicar alguma mensagem que ainda não soube traduzir.

Fonte: https://www.instagram.com/p/BMNAfvRBZeK/

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Se voltasse uns dez anos no tempo, imagino que estaria no mesmo lugar.

Nessa época, no entanto, qualquer olhar para a janela era distração e quase um pecado. A gente não era nada além de adolescentes, todos ocupados demais tentando vencer uns aos outros em rankings das melhores notas, e toda nossa existência se definia por prognósticos de sucesso ou fracasso em uma reação em cadeia que começaria a partir dos exames de entrada para as universidades. Éramos, em grande parte, um coletivo de descendentes de colonos e ignorantes da própria condição, mas ébrios da ideia de ocupar algum centro do universo que surpreendentemente ficava em alguma esquina aqui nessa cidade. E a cidade, mesmo como titular de todo o nosso carinho, tinha uma relevância questionável na ordem das coisas.

Nossa escola, aliás, ficava no centro, na Rua XV de Novembro.

Ela tinha o mesmo nome que em muitos outros lugares pelo Brasil, mas aqui era especial por ser uma amostra do que nos parecia ser o mundo: havia mesinhas na calçada colorida, coladas às paredes dos poucos cafés, onde senhores de sobrenome alemão e bigode estavam eternamente lendo o Jornal de Santa Catarina.  Os cartórios e tabelionatos eram cheios de moças bonitas – contratadas especificamente para enganar os sentidos de quem aguardava na fila – e de contínuos impacientes. Havia sempre uma farmácia ou uma loja de roupa e quinquilharias aberta, ainda que seus ocupantes nunca satisfizessem as promoções e queimas de estoque ofertadas pelas vitrines. E nós nunca passávamos da porta da igreja matriz, embora suas escadas fossem palco de nossas tramas adolescentes.

Fosse a pé, de ônibus, carona ou bicicleta, saíamos dali direto para casa, de volta para uma existência sem mais dificuldades. Vez ou outra, nossas incursões nos levavam para mais longe, mas nossa cartografia era limitada. Mal sabíamos se havia ou não conchavos nos prédios das repartições públicas, e acho que nem nos importava tanto. Tampouco dispúnhamos de suficiente evidência de que as casas ao nosso redor eram habitadas por pessoas de verdade.

Almoçando por lá, a gente via também os garotos com os uniformes da rede estadual, que cobríamos com um véu de presunções. Por alguma razão, imaginávamos que fossem se importar com nossas espinhas, nossos ridículos penteados e a incompatível ambição que a gente levava inocentemente nas mochilas de marca. Acho até que esperávamos algum conflito. Era exagero e meio absurdo. Mas, à época, eu certamente não saberia explicar nenhum dos porquês. Nesse ponto, as escolas públicas eram reservadas para as histórias dos que jogavam em competições interescolares na primavera e para as comparações com vidas que nunca teríamos.

A gente sequer sabia explicar o que faziam tantas pessoas na rua quando saíamos às 15h para buscar uma distração, ainda que isso se resumisse a uma garrafa de Coca-Cola, um saco de Doritos e uma tarde perdida trocando tiros e socos na tela da televisão de algum de nós. Mais tarde, experimentaríamos a ousadia de comprar Vodka barata para nos catalisar a imaginação e um senso de transgressão, mas tudo isso devia ser muito bem contido e planejado. Isto é, a partir das seis, a casa deixava de ser nossa; e alguns, que moravam na cidade vizinha, precisavam pegar ônibus. Nossa vidinha era banal, mas a gente precisava estar sempre bem apresentado e aparentando ser um estudante acima da média e promissor. Até mesmo no último ano do colégio, quando o Cuba-Libre dos sábados virava algo mais ousado, sabíamos que o ranking não mudaria, e as provas e expectativas seguiriam implacáveis na segunda-feira.

Nada disso era justo com o resto do mundo, tão ocupado e absorto com seus próprios problemas.

Fonte: Tumblr

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Sobre alguns de nós, recaía ainda um outro agravante: a gente queria ser músico ou fazer alguma coisa bonita da nossa vida. No meu caso, por exemplo, as apostilas tinham detalhados desenhos e poesias toscas em suas margens. Chegava ao ponto de desenhar na mesa pentagramas e preenchê-los com notas que nem formavam uma melodia, mas que davam a entender alguma pretensão artística para algum dos colegas que passasse por ali entre uma aula ou outra – e isso bastava. Os mais populares estavam absortos em serem bonitos, interessantes e ricos, é claro; mas havia quem se interessasse. E dali para o palco do Salão Nobre, o repertório de três músicas me bastaria.

Guardo com carinho essas memórias. Em primeiro, porque há algo de muito nobre nessas pequenas humilhações que eu me provocava. Sem nenhum talento aparente e com um aspecto bastante cômico – rosto, ideias e porte de gurizão –, é evidente que aquilo não me levaria a lugar nenhum. Não era pianista. Não era cantor. A plateia não estava interessada, e suspeito até que me jogariam tomates se os tivessem.

Mas há um segundo ponto, que é o silêncio que precedia as primeiras notas.

A cena era esta: alguém me chamava, e eu ia sem muito jeito sentar no banco do piano, que era tão velho e desajustado quanto o assento de traçado de vime. Eu fitava a plateia de terceiranistas e a luz de palco me ofuscava a visão. Voltava para o piano, sentia a pulsação me incentivando a fugir dali e respirava um par de vezes com as mãos sobre as teclas, ainda decidindo se aquilo era uma boa ideia.

Na minha mente, eu via meus colegas desinteressados. Camisetas suadas, o olhar impaciente no celular, alguma galhofa preparada para o corredor depois. Ou provavelmente passaria totalmente em batido. Eu não sabia o que era pior.

Num último momento, então, algo mágico sucedia. Uma última tossida me dava a deixa, e o intenso silêncio no salão me confortava e convidava a quebrá-lo. Esse silêncio deveria durar menos que um ou dois segundos, mas era o mais perto de casa que eu conseguiria chegar para tirar daquele piano os mesmos sons que aprendera a fazer no teatro. E enquanto eu ainda tentava me dar conta do que acontecia ou qual seria a melhor cara a fazer, minhas mãos já tinham se atravessado e começado a execução claudicante.

Ao final da música, uma recompensa: se você ouvir com atenção, o som de palmas se parece com o da chuva caindo no telhado.

À época do piano no salão nobre, não creio que essa frase me ocorreria da mesma forma, mas suspeito que sempre soube reencontrar paz e alguma plenitude no som de chuva mascarado de palmas. Eu teria que sentar e decidir se preferia o silêncio que me antecedia ou esse falso temporal que ocorria no fim. Provavelmente a sensação de aparecer um pouco e depois sumir superava a de me acalmar na angústia, então devo adivinhar que escolheria a segunda opção.

Agora, no entanto, sou brindado com os dois.

***

Duas da manhã é mesmo um horário mágico. Há o silêncio de palco que precede um esporro, e há a discreta chuva que aplaude pelas árvores.

O melhor disso é que me sinto um pouco adolescente. Não tenho as espinhas na cara e nem os pequenos romances inventados, mas tenho toda a insegurança e a inconfundível sensação de ser tudo e não ser nada ao mesmo tempo.

Amanhã por certo me aguardam alguns e-mails, as xícaras de café da cafeteira do escritório, a dúvida de carreira nas entrelinhas do meu documento editado no word, e alguns sorrisos de cortesia entre as muitas mensagens e telefonemas trocados. Devo ter uma reunião à noite e a ansiedade não me deixará descansar: será preciso pensar em tudo ao mesmo tempo e, sobretudo, em como vamos fazer um futuro desse projeto de vida que nutro dia após dia.

Amanhã me deve ocorrer também a impossibilidade de algumas coisas. Me lembrarei da minha falta de cuidado com a fatura do cartão de crédito. Não teria dinheiro para o supermercado, fosse essa minha função em casa. E antes de sair para o trabalho, fitarei o amassado no lado direito do carro, lembrando que ainda procrastino o conserto. Não sei nem sei quanto tempo levará até que eu some renda ou jogo de cintura suficiente para resolver esses problemas todos por conta própria – o que dirá os problemas alheios.

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"Hotel Window", de Edward Hopper (1955). Fonte: Pinterest

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A chuva parou por um momento. O relógio na parede insiste em marcar seu ritmo. Seguro um cigarro que está quase acabando, e eu nem fumo.

Antes de arremessá-lo pela janela, vejo a ponta dos meus dedos se manchando muito sutilmente de amarelo. A pressão baixa já me convida a dormir. Às duas da manhã, o silêncio nem arrisca me julgar, porque ele não tem quem o vocalize.

Graças a deus.

 

 

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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