Esse cara não existe

Ele começou o dia devagar, falando bem baixinho que era pra avisar quando eu saísse de casa – ele também queria ir ver o sol nascer no mar. Fomos juntos assistir ao sol subir no céu e ele ficou quietinho, sem falar nada. Seus olhos brilhavam tanto que até refletia aquela luz que vinha do mar. Ele entendia a paz de assistir um nascer do sol e de uma manhã tranquila. No caminho de volta pra casa, ele prometeu preparar o café da manhã. Pra mim, chá. Na minha xícara preferida.

Fui trabalhar e meu celular ficou em silêncio a manhã toda. Confesso que chequei uma vez ou outra pra ver se não tinha esquecido no modo avião, mas não. Nem um bipe tirou minha atenção da planilha que precisava terminar. E, no meu intervalo de almoço, o celular tocou. Ele me ligou só pra confirmar se a programação do fim de semana continuava de pé. Pedi desculpas. Tinha esquecido que já era sexta-feira, mas, claro, tava de pé.

Fazia tempo que a gente sabia que precisava desse tempo juntos, mas dessa vez a ideia tinha sido dele. Ele, aliás, quis planejar tudo. Ele queria transformar um fim de semana qualquer em dias especiais. Eu topei. Veio me buscar exatamente às 20h, cheiroso e com um sorriso de orelha a orelha que parecia perfumado também.

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Fonte: Tumblr

A noite começou num bar lindo, desses com luz baixa, sofá de couro verde escuro e fotos em preto em branco emolduradas enfeitando as paredes de madeira, sabe? Meu coração parou por um segundo: como ele sabia que eu adorava esse lugar? Sentei, respirei fundo e junto com a música que tocava, alguma coisa parecida com paz encheu o meu peito. Fui ao banheiro e, quando voltei, ele já tinha pedido exatamente o drink que eu queria. Fiz cara de surpresa e ele sorriu: “Acertei, né?”. Cá entre nós, ele não fazia ideia que já tinha acertado meu aniversário, meu filme preferido, a flor que eu mais gosto e até pra onde eu queria ir nas próximas férias.

Depois dos drinks, a gente foi jantar. Ele tinha feito reserva num restaurante diferente porque sabia que, dessa vez, eu tava tentando ficar meio longe dos carboidratos. Me contou do dia dele no trabalho e não falou mal de nenhum cliente e nem do chefe. Entre um prato e outro, ele me fez lembrar que, quando a gente faz o que ama, vemos todos os desafios como oportunidades. E entre um gole de vinho e outro, me lembrei do quão grata eu era por aquele exato momento.

A verdade é que eu não lembro como chegamos lá, mas a gente terminou a noite num show de rock em um pub underground que tem aqui na cidade. Era música ao vivo, a gente não podia perder. Com uma cerveja na mão, ele cantou todas as músicas e até fechou os olhos quando tocou The Clash. Foi essa cena que ficou na minha cabeça enquanto a gente ia pra casa.

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Assim que a gente chegou em casa, entre risos e pernas frouxas demais pela bebida, ele se lembrou de me mostrar uma música nova. Colocou uma música no Spotify que nunca tinha ouvido antes. Eu só sabia que era jazz. Ele apagou a luz.

Quando acordei, ele já tava de pé, sorrindo, e já trazia o café na cama. “Hoje a gente vai passar o dia no mar! Tu topa assistir um filme e comer pizza de noite?”, falou bem alto e meio cantando enquanto eu ainda tentava manter os olhos abertos.

Ou vai ver eu ainda tava sonhando, porque a verdade é que esse cara não existe. Ainda não.

Ana Metz Castan

Ana Metz Castan

Ana é louca por flores, adora chás e odeia clichês. Tem sempre à mão papel e caneta e adora juntar gente em volta de uma mesa. Curiosa e apaixonada, explora projetos que tragam mais empatia, criatividade e leveza para o mundo. Acredita que água salgada curatudo e que tristeza não tem espaço em dias de céu azul e frio. Ana é fundadora do Uma Boa Dose e hoje estuda na Kaospilot, na Suíça.
Ana Metz Castan

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