Autor: Emanuel Feruzi (unsplash.com)

Licores

Por Lilian Arruda

Fitou o espelho longamente. Havia planejado tudo para que os últimos momentos fossem memoráveis, se esquecendo que comprovadamente todos os momentos que já havia programado nunca aconteceram como planejado.

Tarde, ele disse. Chegaria tarde, muitas coisas pra arrumar. Não era de se espantar. Algumas horas o separavam da sua nova vida. Outro país, outro trabalho, a mesma família, a mesma mulher.

Alguns dias a separavam da vida dela, ainda no mesmo ritmo, a vida paralela. As vidas que ela sempre equilibrou como copos em uma bandeja, mas que agora estava prestes a cair. O copo que guardava os dois, o licor das expectativas, a mistura improvável de vidas que já seguiam seus cursos, mas que, por acidente, acabaram misturadas. Aquele era um licor forte, dos que embriaga ao primeiro gole, dos que recebem a culpa pelas ações que a consciência não conseguiria suportar. Todas as bebidas são feitas de essências, de notas principais e de fundo. Naquele copo, cada sabor e aroma falavam de profanação, mas aquele cálice era doce demais para ser afastado.

Autor: Roberto Tumini (unsplash.com)

Autor: Roberto Tumini (unsplash.com)

Ambos sabiam disso, que poderiam passar o resto da vida naquela brincadeira de equilibrar bandejas. Ele sabia do seu peso na mão da amante, ela reconhecia sua fraqueza em não poder escolher. Ambos se embriagaram demais para deixar cair o copo voluntariamente.

Comparações poéticas tentam explicar o que, na verdade, não é tão bonito assim. As palavras têm disso, alimentam as ilusões em universos paralelos onde o feio se torna belo. As palavras adornam ações e é por isso que, em uma sociedade falada, nunca se saberá distinguir certo e errado, apenas qual escolha conseguiu ser melhor enfeitada.

Se conheceram em uma festa. Música alta, rostos desconhecidos. Um ano atrás havia compartilhado o quarto com uma garota que lhe confidenciou sobre o relacionamento incerto que acabava de começar. A mesma garota agora se aproximava sorrindo. Dentes, copo na mão, um abraço pra cumprimentar. “Lembra do Júlio? Estamos namorando agora, vou apresentá-la pra ele”.

Se conheceram em uma festa. Música alta, precisavam chegar perto pra falar. Cantos amigáveis para poder acender o cigarro. Lá ficaram conversando durante quase todo tempo, enquanto outros passavam, enquanto a colega acenava de longe.

Sorrisos. Dentes. Provavelmente os dela teriam outra utilidade se por um segundo fosse percebido o que estava acontecendo, que naquele instante duas essências começavam a se misturar. Entre cigarros, cervejas e conversas banais, ambos se liquefaziam sem perceber. Continuaram conversando por outros dias, sem música alta, sem cantos e cigarros. Conversavam sobre a vida, sobre escolhas. Ana admirava o jeito altivo de Júlio, a forma como parecia não se preocupar com o mundo, com as ideias que pululavam por aí.

Lá dentro das idealizações que ela construía a cada frase, cada vez mais o via crítico, em partes até pedante. Detestava a sua intransigência, detestava a sua mania de saber de tudo, mas a cada dia se sentia magneticamente forçada a se aproximar, a entender o que faria aquele homem vacilar, o que o agradaria e, secretamente, escondia a principal resposta que buscava encontrar – se ela o agradaria.

Ana era daquelas que sempre pensava demais. Sempre possuía um comentário para tudo, uma crítica, um defeito. Porém, seu sorriso e modo doce de falar amenizavam até para ela mesma os aspectos negativos que a faziam extremamente parecida com Julio. Julio era Ana, mas com um diferencial, o principal, aquilo que sempre colocou Ana de frente ao desconhecido ao encarar aqueles olhos verdes: Julio não se importava.

Ele também pensava e sabia de todas as consequências, prós e contras, mas o julgamento dos outros simplesmente não fazia a menor diferença em sua vida. Não o preocupava ou alterava seu sono. Julio existia e empunha sua existência perante aos demais de forma tão natural como ela jamais havia visto. Era isso o que assustava Ana e era esse o magnetismo que não a deixava partir.

Ana sempre quis poder se desprender, viver além das amarras sociais, tomar decisões por ela, não pelos roteiros pré-traçados de todos os coadjuvantes que encenam a periferia da sua vida. Ela entendia, tinha respostas para tudo, sabia como justificar tudo. O que Ana não sabia era como não se importar.

Foi assim, na tentativa de conseguir desfrutar as suas vontades sem sofrer o julgamento alheio, que Ana descobriu outro ponto importante em sua vida – que ela poderia ser quem quisesse para quem ela quisesse. Quando tomou consciência da capacidade de ser várias sendo uma só, se formaram as coleções de copos que Ana elegantemente equilibrava na bandeja da sua vida.

E alí estava ele, fazendo com que pela primeira vez ela se sentisse tão insegura ao ter tudo nas mão, mas tão pouco controle em manter seus copos de pé. Não importava onde o posicionasse, ela se encontrava cambaleando para não deixar tudo cair, enquanto tentava ao máximo escondê-lo, como um copo de boteco entre taças de cristal.

Autor: Emanuel Feruzi (unsplash.com)

Autor: Emanuel Feruzi (unsplash.com)

Era assim que ela tinha chegado até alí. Olhando-se no espelho sem se ver, apenas um emaranhado de fluídos. Apenas o peso insuportável de uma ausência eminente. Apenas o sentimento irreparável de que, por tanto se importar, estava prestes a se despedir da única coisa que realmente tinha importância.

O interfone tocou. Era tarde.

Respirou fundo. Sorriu forçadamente para a imagem refletida.

Abriu a porta e caiu.

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
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