Qualquer lugar serve?

Por Évelin Ascari

 

– Com licença, o senhor sabe onde é que eu pego o ônibus? Aquele que leva pra vida?

– Moça, pra vida eu não sei, não. Mas não lembro da gente ter que pegar ônibus. A gente nasce e não tem jeito, já tá vivendo. Assim, sem ninguém perguntar mesmo.

– Mas se eu não posso escolher pra onde tô indo não é melhor parar de ir?

– De jeito maneira! Vou te contar um causo que aconteceu comigo. Senta, descansa um pouco. Teve um dia que eu tava desanimado, numa moleza só. Meu amigo de muitos anos veio me chamar pra pescar e eu só queria mesmo era ficar na minha rede. De tanto que ele insistiu e por zelar demais pela nossa amizade, levantei, fui atrás das tranqueiras de pesca e começamos a caminhada até o rio. Conversa vai, conversa vem, o dia foi passando e o jantar estava garantido, ia ter peixe na brasa. E na volta, cê não acredita! Ouvi o canto de um passarinho que meu pai adorava quando eu era criança. Já fazia pra lá de 40 anos que eu não ouvia aquele som. Pois o bichinho estava lá, cantando feliz e me fez arder de alegria por lembrar de todas as vezes  que passei ali com meus irmãos procurando ver a cara do danado.

Fonte: weheartit.com

Fonte: weheartit.com

– Que história! Mas ainda não entendi o que tem a ver com o ônibus…

– Tem tudo, ué. Eu não precisava sair de casa naquele dia e eu realmente não queria. Mas fui e tive um dos melhores momentos da minha vida. O ônibus que cê tá querendo pegar pode não passar, pode nem existir, mas eu garanto que se cê for num outro vai ter a mesma sorte que eu tive e encontrar coisa boa por aí. De passarinho, menina, o mundo tá cheio. O que falta mesmo é gente querendo ouvir eles cantá.

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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