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Cotoveleiras

por Bruno Tessari

 

EM PROCESSO de simbiose com o meu sofá – ou, vulgarmente dizendo, sem porra nenhuma pra fazer –  dei início a uma jornada reflexiva a qual não me orgulha em nada. Infelizmente, é uma jornada sem volta a questões de ordem vital. Antes de convidá-lo, peço que não esperem de minha cabeça desocupada uma solução para a crise dos refugiados ou para a situação da política nacional. Para mim, nesse momento, o mais importante é saber, afinal, para que servem as cotoveleiras.

Minha fé na humanidade se renova toda vez que alguém, como eu, se questiona quanto a utilidade desse curioso objeto. Porém, ao mesmo tempo, sempre que vejo um portador de cotoveleiras me sinto açoitado por um ponto de interrogação. Alguns dos meus chefes ostentavam sem pudor inúmeros blazers com cotoveleiras e, talvez isso, esclareça a minha implicância.

Em brevíssima e recente pesquisa, acabo de constatar que as cotoveleiras aparecem, em primeira análise, como um acessório de proteção para skatistas e patinadores. O que, em certo ponto, acentua o meu mal estar, já que não consigo vislumbrar qualquer possibilidade de diversão com o uso de patins. Os de gelo ainda resguardam um certo charme, tudo bem, mas os de rodinha, para mim, só se explicam em hipermercados. Voltando à proteção…Sim, as cotoveleiras fazem sentido quando ganham esse propósito, porém, o que um paninho bege em um paletó escuro pode proteger? A picada de aedes aegyptis pelos cotovelos? As críticas implacáveis de Glorinha Kalil? O derretimento das calotas polares?

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  Vamos às opções: estivadores em algum porto qualquer, a fim de materializar suas virilidades ou remediar os maus tratos. Quem sabe eles, após um dia estafante de trabalho, cansados de transportar infindáveis sacas de café para cá e pra lá, tenham inventado as tais cotoveleiras. Elas seriam um claro sinal de que ali se encontrava um hábil e assíduo competidor na queda de braço. Logo, quanto mais gastas fossem suas cotoveleiras, mais experiência o atleta acumulara na disputa.

  Ou alguém, um ser humano normal, com RG, CPF e título de eleitor. Um fiscal sanitário, atendente de pedágio ou social media, poderia explicar a invenção. Ele, cansado da monotonia bípede e da enfadonha mecânica pé ante pé, resolve ir, mas só às terças, rastejando-se até o trabalho. E, com um tocante apreço pelo seu blazer-bege-última-moda, costura um pano sobre os cotovelos para garantir uma sobrevida ao estimado paletó.

  Ainda, num viés metafórico, mas absolutamente plausível, podemos imaginar um indivíduo seguro de si, bem resolvido, articulado, quase um Celso Russomanno. E, que num esforço de elegância e simplicidade, decide, por assim dizer, costurar entre o braço e o antebraço, um sutil e aveludado tecido em formato de elipse para evitar, a todo custo, que se fale pelos cotovelos.

  A verdade é que pouco ou nada se sabe sobre as cotoveleiras ou a maioria das coisas. Me indago e busco respostas por uma simples e notória falta do que fazer. Talvez a estética seja a resposta pra tudo ou talvez não. Quem sabe, na mais triste e pessimista conclusão, as cotoveleiras e toda a nossa vil existência seja baseada em absolutamente nada – ou,  vulgarmente dizendo, em porra nenhuma.

  Só nos resta especular.

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
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