Longe da Língua

por Paola Vasconcellos

 

“A gente vai ser ver de novo?” ela perguntou. Não sabia se a pergunta era feita para si mesma, para ele ou para o universo, suplicando uma réplica diferente da que intuía.

Naquele aeroporto cheio de gente, cheio de histórias e corações que se separavam e se reencontravam diariamente parecia não haver mais ninguém, só ela e ele. Só a sua história, essa mesma, descompassada, como sempre costumara ser sua vida e seu coração.

Autor: Samuel Sosina (unsplash.com)

Autor: Samuel Sosina (unsplash.com)

Ela amava aeroportos, ousava dizer que era seu lugar preferido no mundo. A ideia de chegar e partir sempre a encantou e, desta vez, que estranha ironia, este lugar que lhe era tão familiar se tornava uma ponte para onde não queria ir. Não queria abandonar essa história.

E lá estavam os dois. Eles sempre foram diferentes, apesar dela achar que entre essas pequenas dissonâncias dos quais eram feitos havia surgido algo entre eles. Ela não sabia dizer se era amor, mas era algo que passara a vida tentando encontrar. Nem ela sabia se procurava o amor, mas sabia que procurava por algo que se parecia com aquilo.

Trocavam poucas palavras, porque se falassem demais, talvez dissessem o que realmente queriam dizer, e isso não estava no planos, deixar o coração falar não estava nos planos. Algumas palavras são pesadas, amargam a boca, melhor mantê-las longe da língua.

“A gente vai se ver de novo?”, foi a única sinceridade que ela se permitiu, um assobio do peito…

Ela não se lembrava exatamente da resposta que ouviu, mas se lembrava dos olhos dele, secos,  e dos dela, húmidos. A resposta não importava. O que quer que saísse dos lábios dele cairia nesse vão que separa duas pessoas que estão prestes a se despedir. Ela apenas deixara as palavras no ar…

Gostava de sonhar com desenrolares de histórias improváveis, como se vivesse em um filme ou dentro dos livros que sempre carregava debaixo do braço, como se a dureza da vida tivesse consolo. Ela sempre sonhou mais do que deveria e sempre escutou que a realidade iria afastar para longe seus devaneios.

E lá estava ela, soprando no vento seus mais profundos desejos: ” a gente vai se ver de novo?”. Talvez quisesse que uma deusa as escutasse e respondesse, alterando o destino. Talvez esperasse que lhe fizessem acreditar que amar fosse possível. Mas ela estava atrasada. Tinha que correr para não perder o voo.

Ela nunca se lembrou da resposta dele, mas não se esqueceu da vista do alto do avião e nem da sensação de deixar um pedaço do seu coração em uma terra e partir em direção à outra.

 

Autor: kazuend (unsplash.com)

Autor: kazuend (unsplash.com)

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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